Autoestima não é se amar o tempo todo — é aprender a se acolher mesmo quando não se gosta de si
- rayssakellymv
- 16 de mai. de 2025
- 2 min de leitura
Muito se fala sobre autoestima como se ela fosse um estado constante de segurança, confiança e amor próprio. Como se gostar de si fosse uma obrigação diária, um tipo de autoestima ideal que, uma vez alcançada, nos blindasse contra inseguranças, dúvidas e autocríticas. Mas na prática clínica — e na vida — a gente vê que autoestima é algo bem mais complexo, delicado e instável do que isso

Autoestima tem mais a ver com relação do que com sensação. Tem a ver com a forma como cada pessoa se relaciona consigo mesma, com a própria história, com os seus limites e com aquilo que acredita merecer. É uma construção subjetiva e, muitas vezes, silenciosa — marcada pelas experiências da infância, pelos vínculos que estabelecemos (ou não) com quem deveria ter nos validado, pelas palavras que ouvimos e por aquelas que faltaram. É por isso que autoestima não se resolve com frases motivacionais ou técnicas rápidas: ela precisa ser trabalhada com tempo, com escuta, com profundidade.
Na clínica, encontramos com frequência pacientes que dizem não conseguir gostar de si mesmos. Que vivem se comparando, que se anulam nas relações, que duvidam do próprio valor. E o trabalho terapêutico com essas pessoas não é empurrá-las para “gostar de si” a qualquer custo. É ajudar a entender de onde vem essa dificuldade. É ir descobrindo, aos poucos, quais foram as experiências que deixaram marcas, quais exigências internas elas carregam, o que elas aprenderam (ou não) sobre merecer amor, cuidado, respeito.
Autoestima não nasce pronta — ela é construída na relação com o outro e, depois, reelaborada na relação consigo mesmo. Por isso, o espaço terapêutico se torna um lugar de reconstrução. Um lugar onde a pessoa pode ser ouvida de verdade, sem precisar performar força ou segurança. Onde ela pode entrar em contato com o que sente, com o que foi reprimido, com o que dói e com o que deseja — e, a partir disso, começar a se perceber com mais clareza e humanidade.
Trabalhar a autoestima na terapia não significa ensinar a “se amar mais”. Significa sustentar um espaço em que a pessoa possa ser quem ela é — com tudo o que isso carrega. E, a partir disso, ir se apropriando da própria história com menos culpa, mais compaixão e mais verdade.
Porque autoestima, no fim das contas, talvez seja isso: não se amar o tempo todo, mas aprender a continuar se acolhendo mesmo nos dias em que não se sente capaz de gostar de si.


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